A atitude de viver conscientemente

Em quase todas as grandes tradições religiosas e filosóficas do mundo encontra-se de alguma forma a idéia de que a grande maioria dos serem humanos passa pela existência como um sonâmbulo. A iluminação é identificada com o despertar; a evolução e o progresso, com a expansão da consciência.

Percebemos a consciência como a mais alta manifestação da vida. Quanto mais elevada for a forma da consciência, mais avançada será a forma de vida. Ascendendo na escala evolucionária desde o primeiro momento em que a consciência emergiu no planeta, cada espécie viva tem uma forma mais avançada de consciência do que a espécie viva do nível anterior.

Em nossa própria espécie levamos esse princípio ainda mais longe. Identificamos a maturidade crescente com uma visão mais ampla, com mais percepção e com mais consciência.

Por que a consciência é tão importante? Porque para todas as espécies que a possuem, a consciência é seu recurso básico de sobrevivência – a capacidade de estar cônscio do ambiente de alguma forma, em algum nível, e de guiar a ação de acordo com essa percepção. Aqui estou usando o termo consciência em seu sentido básico: o estado de estar ciente, de perceber algum aspecto da realidade. Podemos também definir a consciência como uma faculdade – o atributo de ser capaz de perceber. À forma especificamente humana de consciência, com sua capacidade de formação de conceitos e pensamento abstrato, damos o nome de mente.

Somos seres para os quais a consciência (no nível conceitual) é volitiva. Isso significa que o perfil da nossa natureza contém uma opção extraordinária – a de querer perceber, ou não dar nenhuma importância a isso (ou evitar ativamente conscientizar-se); de buscar a verdade, ou não se preocupar com isso (preferindo descer a um nível mais baixo de consciência). Em outras palavras, temos a opção de exercitar nossos poderes, ou de subverter nossos meios de sobrevivência e bem-estar. Essa capacidade de auto-direção é nossa glória e, às vezes, nosso fardo.

Se não executamos as nossas atividades com um grau de consciência adequado, se não vivemos conscientemente, a penalidade é um senso de auto-respeito e de auto-eficiência diminuído. Não podemos nos sentir competentes e valorosos enquanto nossa vida for conduzida em meio a um nevoeiro mental. A mente é nosso instrumento básico de sobrevivência. Se ela é traída, a auto-estima sofre. A traição na sua forma mais simples é evadir-se dos fatos desconcertantes. Por exemplo:

“Sei que não estou dando o melhor de mim no trabalho, mas não quero pensar nisso”.

“Sei que há sinais de que nosso negócio vai indo de mal a pior, mas o que fizemos funcionou antes, não foi? Seja como for, esse assunto me aborrece; quem sabe, se eu ficar firme no meu lugar, a situação não se resolve por si mesma – do jeito que for”.

“Ressentimentos legítimos? Que ressentimentos legítimos? Minha esposa está sendo influenciada por essas feministas malucas. Por isso me atormenta tanto.”

“Sei que meus filhos sofrem por ficarem tão pouco comigo, sei que estou magoando-os e causando ressentimentos; quem sabe um dia mudarei.”

“Como? Estou bebendo muito? Posso parar quando quiser.”

“Sei que a maneira como estou comendo está acabando com minha saúde, mas...”

“Sei que estou dando um passo maior que a perna, mas...”

“Sei que sou falso e minto sobre minhas realizações, mas...”

Através das milhares de escolhas que fazemos entre pensar e não pensar, entre ser responsável diante da realidade ou evitar sê-lo, estabelecemos uma noção de quem somos.

Conscientemente, é raro nos lembrarmos dessas escolhas. Mas, no fundo de nossa psique, elas vão se acumulando e, a soma de todas elas é o que chamamos “auto-estima”. Auto-estima é a reputação que adquirimos diante de nós mesmos.

Não temos todos a mesma inteligência, mas a questão não é essa. O princípio de viver conscientemente não é afetado pelos níveis de inteligência. Viver conscientemente significa querer estar ciente de tudo que diz respeito às nossas ações, nossos propósitos, valores e objetivos – ao máximo de nossa capacidade, qualquer que seja ela – e comportarmo-nos de acordo com aquilo que vemos e conhecemos.

A TRAIÇÃO DA CONSCIÊNCIA
É traída a consciência que não é traduzida numa ação apropriada; é a mente invalidando a si mesma. Viver conscientemente é mais do que ver e conhecer; é agir com base no que se vê e se conhece. Assim, posso reconhecer que estou sendo indelicado e impaciente com meu filho (ou com minha mulher ou um amigo) e tenho que reparar algumas coisas. Mas não quero admitir que cometi um erro, então adio, declarando que ainda estou “pensando” no caso. Isso é o oposto de viver conscientemente. Em um nível fundamental, é evitar a consciência – evitar o significado daquilo que estou fazendo; evitar meus motivos; evitar minha constante crueldade.

POSSÍVEIS MAL-ENTENDIDOS
Podem acontecer alguns mal-entendidos em decorrência da aplicação do princípio de viver conscientemente.

   1) É próprio da natureza humana aprender a automatizar novos conhecimentos e habilidades, como falar uma língua ou dirigir um automóvel, para que não exijam    mais de nós o nível de atenção explícita que foi necessário no estágio de aprendizagem. Quando se adquire o domínio, eles mergulham num repertório acumulado    em nosso subconsciente – e assim liberam a mente consciente para o novo e o desconhecido.

Viver conscientemente não significa reter na consciência explicita tudo o que aprendemos, o que não seria possível e nem desejável.

   2) Estar operando conscientemente – estar num foco mental apropriado – não significa que devemos estar às voltas com a solução de um problema em todos os    momentos da nossa vida ativa. Podemos decidir meditar, por exemplo, esvaziando nossa mente de todos os pensamentos e tornando-nos disponíveis a novas    possibilidades de relaxamento, rejuvenescimento, criatividade, percepção, ou a alguma forma de transcendência. Essa pode ser uma atividade mental totalmente    apropriada – aliás em alguns contextos, é muito desejável. E, claro, há outras alternativas à solução de um problema, como fantasias criativas, ou abandonar-se    às brincadeiras físicas e sensações eróticas. Em termos de funcionamento mental, o contexto determina o que é apropriado. Operar conscientemente não    significa estar sempre no mesmo estado mental, mas sim estar no estado apropriado para o que estou fazendo. Por exemplo, se estou brincando de rolar no    chão com uma criança, é óbvio que meu estado mental será bem diferente do que seria se eu estivesse trabalhando num livro. Mas eu estar operando    conscientemente fica demonstrado pelo fato de que, não importa quão idiota eu pareça, parte da minha mente monitora a situação para garantir que a criança    permaneça fisicamente bem. Ou se, em contraste, não me dou conta do fato de que a brincadeira está muito forte e pode machucar a criança, meu nível de    consciência está inadequado à situação. O ponto em questão é que a propriedade, ou adequação, de meu estado de consciência só pode ser determinada em    relação a meus propósitos. Não há nenhum estado “certo” ou “errado” no vácuo.

   3) Dado o número incontável de coisas em nosso mundo que são em teoria possíveis de serem conscientizados, é claro que a percepção envolve um processo de    seleção. Ao escolher me ocupar disto, implicitamente estou escolhendo não me ocupar de qualquer outra coisa – pelo menos no mesmo momento. Sentado    diante do meu computador para escrever este artigo, estou relativamente desligado do resto do meu meio ambiente. Se eu mudar de foco, vou perceber o som    dos carros passando, de uma criança gritando e de um cachorro latindo. No momento seguinte, tudo estará distante da percepção consciente e minha mente    será absorvida pelas palavras na tela do computador e pelas que se formam em minha mente. Meus propósitos e meus valores ditam o padrão de seleção.

Quando estou escrevendo, em geral estou em tal estado de concentração que mais parece um transe. Um implacável processo de seleção tem início, mas dentro desse contexto eu diria que estou operando em um alto nível de consciência. Entretanto, se, sem mudar meu estado, eu ainda estiver voltado para meus pensamentos e alheio ao ambiente externo e, tiver que dirigir meu carro, poderia ser acusado de estar operando em um nível perigosamente baixo de consciência, porque não me adaptei à mudança de contexto e de intenção. Quero dizer mais uma vez: só o contexto pode determinar se um estado mental é apropriado.

SER RESPONSÁVEL PERANTE A REALIDADE
Viver conscientemente implica respeito pelos fatos da realidade. Isso significa os fatos de nosso mundo interior (necessidades, vontades, emoções), bem como os do mundo exterior. E contrasta com o desrespeito pela realidade contido numa atitude como “Se não quero ver ou reconhecer uma coisa, ela simplesmente não existe”.

Viver com consciência é viver responsavelmente perante a realidade. Não temos de gostar necessariamente do que vemos, mas reconhecemos que o que é é, e o que não é não é. Desejos, medos ou negativas não alteram os fatos. Se desejo um novo equipamento, mas necessito de dinheiro para pagar o aluguel, meu desejo não vai alterar a realidade para tornar a aquisição racional. Se temo uma cirurgia que meu médico diz ser necessária para salvar minha vida, ter medo não significa que viverei igualmente sem a operação. Se uma afirmação é verdadeira, negá-la não a tornará falsa.

Assim, quando vivemos conscientemente, não confundimos o subjetivo com o objetivo. Não imaginamos que nossos sentimentos sejam guias infalíveis para a verdade. Podemos aprender com nossos sentimentos, é claro, que podem até nos colocar na direção de fatos importantes, mas isso envolverá uma reflexão e um teste de realidade, que por sua vez envolve a participação da razão.

Entre algumas especificações de viver conscientemente, podem ser listadas as seguintes:
- ter a mente ativa em vez de passiva;
- estar no “momento” sem perder o contexto mais amplo;
- buscar os fatos relevantes em vez de afastar-se deles;
- querer estabelecer distinção entre fatos, interpretações e emoções;
- perceber e confrontar impulsos de negar ou evitar realidades dolorosas e ameaçadoras;
- querer saber “onde estou” em relação aos meus objetivos e projetos, saber se estou tendo sucessos ou fracassos;
- querer saber se minhas ações estão alinhadas com minhas intenções;
- perseverar na tentativa de entender, a despeito das dificuldades;
- ser receptivo a novos conhecimentos e estar disposto a rever antigos pressupostos;
- estar disposto a ver e corrigir erros; buscar sempre expandir a percepção – assumir um compromisso com o aprendizado – portanto, uma maneira de viver comprometida com o crescimento;
- querer entender o mundo ao meu redor;
- interessar-me não só em conhecer a realidade externa como também a interna, a realidade de minhas necessidades e aspirações, de meus sentimentos e motivos, para não ser um estranho ou um mistério para mim mesmo;
- querer estar ciente dos valores que me movem e me guiam, bem como conhecer suas raízes, para que eu nãos seja dirigido por valores que eu tenha adotado irracionalmente, ou aceito de outros, de forma não crítica.



 


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