Necessidades - Motivos - Comportamento

RESUMO
O artigo enfoca as principais necessidades humanas de acordo com alguns autores, buscando uma compreensão acerca do comportamento dos empreendedores e suas necessidades. Sabe-se que as molas propulsoras do comportamento são as necessidades, que levam à busca incessante da satisfação, neste sentido pode-se dizer que o comportamento de todos os indivíduos está pautado nisto. É importante destacar que as necessidades, manifestação de desequilíbrio interno, possibilitam o crescimento, a busca por inovações, desenvolvimento de habilidades e novos conhecimentos. O empreendedor vê em seu empreendimento o meio propício para a satisfação das suas necessidades, principalmente a de auto-realização, que está relacionada a superação dos seus próprios limites.
PALAVRAS-CHAVE: Necessidades, Motivação, Comportamento, Empreendedores de Sucesso.

INTRODUÇÃO
“O que for teu desejo, assim será tua vontade.
O que for tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino.”
(Brihadaranyaka Upanishad IV)

O que move o comportamento humano? Este é um questionamento que suscita grandes debates não sendo exclusividade do mundo acadêmico, o quê nos move para a ação?

O ser humano vive em função das suas necessidades conscientes ou inconscientes que, independemente disso, são as grandes propulsoras de comportamentos.

As pessoas, das mais diversas formas e níveis, buscam satisfazer suas necessidades e o trabalho é um dos meios para alcançá-la. As motivações humanas estão associadas à forma de percepção da realidade de cada um, as oportunidades geradas pelo ambiente organizacional para suprir as necessidades e permitir que os indivíduos alcancem seus objetivos, e o grau como as necessidades se manifestam num determinado momento.

Por outro lado, as organizações constituídas de pessoas que possuem desejos, necessidades e motivos, os objetivos pessoais e coletivos fazem uma interação dinâmica, formalizando um “contrato psicológico” com as necessidades da organização e dos indivíduos, criando-se expectativas na promoção da satisfação destas.

NECESSIDADES
Segundo Lezana e Tonelli (1998) a necessidade é um déficit ou manifestação de desequilíbrio interno do indivíduo, podendo ser satisfeita, frustrada (permanece no organismo) ou compensada (transferida para outro objeto).

Para a teoria psicanalítica, a necessidade é fundamentada dentro de uma estrutura psíquica, formada pelo id, ego e superego. O id é o grande responsável por nossas necessidades e motivações. O superego assume, nesta estrutura, o papel de censor, norteado pelos valores morais, culturais e sociais, de acordo com o meio no qual o indivíduo se desenvolveu. O ego faz a mediação entre as necessidades (desejos) emergentes do id e as
limitações impostas pelo superego, respondendo, da melhor forma possível, dentro das oportunidades encontradas no meio. No id encontram-se as pulsões e os instintos que efetivamente movem para a ação, pois criam um desequilíbrio na estrutura psíquica desencadeando uma reação aos estímulos, produzindo um estado de excitação e de tensão e consequentemente, uma mobilização para a restauração do equilíbrio psíquico (satisfação das necessidades).

Para Kurt Lewin, criador da teoria de campo, quando o equilíbrio é perturbado aparece uma tensão que leva a um movimento, uma necessidade e a sua satisfação tem como objetivo retornar ao equilíbrio. Segundo Lewin (apud Schultz e Schultz, 1981, p. 319) “o comportamento humano envolve o contínuo aparecimento de tensão-locomoção-alívio. Essa seqüência é semelhante à de necessidade-atividade-alívio. Sempre que uma necessidade é sentida, existe um estado de tensão, e o organismo tenta descarregá -la agindo de modo a
restaurar o equilíbrio ”. Desta maneira, ao se instalar o desequilíbrio, aparecem o estado de tensão, insatisfação, frustração e desconforto. O surgimento da tensão instiga a realização de alguma tarefa que e quando da sua finalização dissipa a tensão, restaurando o equilíbrio.

Contudo, a não satisfação das necessidades pode resultar na persistência da tensão. Henry Murray (apud Longen, 1997) afirma que as necessidades estão relacionadas com os aspectos internos do organismo, porém não desconsidera a presença de estímulos externos que propulsionam a ação. Isto significa que existe uma inter-relação entre estímulos internos e externos. Diferentes necessidades podem acontecer simultaneamente, com graus de satisfação semelhantes, maiores ou menores, conflitantes entre si e o comportamento do indivíduo será determinado por estas.

Perls (1977), criador da Gestalterapia, considera também que o comportamento acontece em relação à pessoa e o seu ambiente, existindo inclusive uma hierarquização das necessidades. O indivíduo atua visando a satisfação da necessidade mais emergente no momento, que se torna figura sobre um fundo. Na medida que esta é satisfeita ela volta a ser fundo, surgindo então uma outra necessidade como figura.
É importante dizer que o fundo contém todas as experiências passadas e presentes e as situações inacabadas. Enfim toda a vida do indivíduo está contida nele, sendo que a figura emerge deste fundo, geralmente de modo delineado, pois uma figura mal delineada, difusa ou cristalizada é sinônimo de disfunções de contato, ou seja, patologias que afetam a saúde psicológica.
Há um fluxo constante de necessidades que, ao serem satisfeitas, tornam-se fundo e não mais figura, dando oportunidade a outra necessidade (figura) de se delinear do fundo e assim sucessivamente. Embora possa existir muitas necessidades concomitantemente, cabe ao indivíduo priorizá-las, diferenciando-as do fundo, mobilizando energia, na tentativa de satisfazê-las.

De acordo com McClelland e a sua teoria dos motivos humanos, as “necessidades são aprendidas e adquiridas socialmente através da interação com o meio” (apud Montana e Charnov, 2000, p. 213) , englobando três motivos:

· Necessidades de realização – é muito forte em empreendedores, uma vez que os indivíduos procuram sempre se auto-desenvolver, estabelecer metas, buscando mudanças constantes.
· Necessidades de poder – tem como característica a obtenção e prática do poder e da autoridade.
· Necessidades de afiliação – estão associadas ao estabelecimento e a manutenção das interações sociais.

Maslow (2000), enfatiza que as condições intrínsecas ao indivíduo e o tipo de motivo e necessidade determinam o comportamento humano. Em sua teoria motivacional, faz uma hieraquização dos cinco acionadores básicos:
· Necessidades fisiológicas – correspondem às necessidades mais básicas como alimentação, habitação, sono.
· Necessidades de Segurança – objetivam a preservação do indivíduo, proteção contra perigos e ameaças.
· Necessidades Sociais – envolvem a participação ou associação a grupos, de ser inclusos e integrados realizando a troca afeto e amizade.
· Necessidades de Estima – relacionadas a auto-estima ou ao ego, envolvem auto-confiança, competência, autonomia, reconhecimento, aprovação dos outros, a satisfação promove sentimentos de poder, prestígio e influência.
· Necessidades de Auto-Realização – diz respeito ao desenvolvimento das aptidões e potenciais, por meio do auto-desenvolvimento contínuo, na busca da superação dos próprios limites.

As necessidades determinam os diferentes tipos de comportamentos, diretamente relacionadas com o grau da necessidade e com a possibilidade de satisfazê-la. É importante salientar que estas necessidades não são escalonarias, mas situacionais. De acordo com Maslow, o indivíduo nunca está plenamente satisfeito, pois ao satisfazer uma, sempre existirá uma outra necessidade a ser satisfeita, dirigindo este indivíduo a atitudes motivacionais, colocando-o em comportamentos ativos diante da vida.

Deve-se ter o cuidado em não confundir atitudes motivacionais com comportamentos condicionados. As transformações de comportamento são resultantes de um processo lento e contínuo, por meio do auto-conhecimento e da descoberta das próprias necessidades, além do desenvolvimento das habilidades. Contudo, o que muitas vezes acontece são apenas modificações de comportamentos superficiais conseqüências de condicionamentos que se apoiam nos reforços e punições que, quando suspensos, as
modificações se extinguem e o comportamento retorna ao estado inicial.

De acordo com Moscovici (1996, p.77) “a motivação humana é constante, infinita, flutuante e complexa. O indivíduo é um todo organizado e integrado. O indivíduo como um todo se motiva, e não apenas parte dele, e a satisfação, consequentemente, atinge o indivíduo todo.”

A possibilidade de estar em contato consigo, de ter a consciência de suas preferências, possibilita que o organismo como um todo, biopsicossocial perceba a necessidade mais emergente, visando a satisfação. Ao compreender como é o seu funcionamento aceitando, até mesmo, as partes que lhe parecem incongruentes. É possível ao indivíduo agir com auto-responsabilidade.

O ser humano não é totalmente independente dos outros, como também, não é totalmente dependente deles. É possível ser consciente da dependência social, assumindo compromissos sociais, sem negligenciar a independência pessoal, estabelecendo uma relação interdependente com o meio. Isso mostra a problemática que ocorre quando tenta-se enquadrar as pessoas a algum modelo ideal, desrespeitando e ameaçando a identidade pessoal, sem verificar quais as reais necessidades de cada indivíduo, esquecendo-se da individualidade dos seres humanos.

De acordo com Moscovici (1996, p.78): “A gratificação (satisfação) e a frustração (insatisfação) de necessidades passam a ser elementos importantes na teoria da motivação. Uma necessidade satisfeita não é mais um motivador e um homem frustrado em algumas de suas necessidades básicas não pode ser considerado inteiramente desajustado, ao contrário, poderá estar mais motivado a depender do grau de sua insatisfação.”

Então, de certo modo a insatisfação das necessidades mobiliza energia para a ação visando a satisfação, caracterizando saúde mental e física, uma vez que o indivíduo quando satisfeito em todas as necessidades tende a inércia. Mas a incessante busca pelo equilíbrio, faz com que o ser humano tente satisfazer todas as suas necessidades, num processo homeostático, entre o indivíduo (eu) e o meio que o cerca. É bom lembrar que indivíduo só cresce porque tem mecanismos que propiciam o desequilíbrio.

NECESSIDADES DOS EMPREENDEDORES

Quem são os empreendedores? De acordo com Lezana e Tonelli (1998, p. 39):

“Empreendedores são pessoas que perseguem o benefício, trabalham individual e coletivamente. Podem ser definidos como indivíduos que inovam, identificam e criam oportunidades de negócios, montam e coordenam novas combinações de recursos (funções de produção), para extrair os melhores benefícios de suas inovações num meio incerto”.

É importante salientar que o desenvolvimento de algumas características comportamentais do empreendedor são fundamentais para o sucesso ou insucesso. De acordo com Dornelas (2001) os empreendedores de sucesso são: visionários, sabem tomar decisões, indivíduos que fazem a diferença, conseguem explorar ao máximo as oportunidades, determinados, dinâmicos, dedicados, otimistas e apaixonados pelo que fazem, independentes e constroem seu próprio destino, bons em planejamento, líderes e formadores de equipes,
sedentos por novos conhecimentos, assumem riscos calculados, criam valor para a sociedade.

De acordo com Tonelli (1999) existem algumas características do líder de sucesso como o estabelecimento de metas - onde se identifica os objetivos a serem atingidos; a definição e esclarecimento do papel das pessoas envolvidas na organização – demonstrando a importância de ser ter consciência do grau de relevância no processo como um todo; o discernimento – para se poder analisar e avaliar as situações e a partir daí tomar as decisões; entre outras. Como o empreendedor tem como umas das principais características a liderança isso demonstra a importância deste indivíduo ter consciência das suas necessidades e de seus liderados, a clareza nos objetivos e motivos geram a motivação e impulsionam o comportamento. Caso isto não ocorra, é possível constatar uma falta de entusiasmo e determinação no alcance das metas, podendo inclusive ocasionar o insucesso.

Sabe-se que o comportamento do empreendedor é um dos fatores de sucesso ou insucesso de um empreendimento, pois a sua personalidade tem um forte impacto sobre a estrutura e desenvolvimento deste empreendimento, e as necessidades, conhecimentos, habilidades e valores do empreendedor configurarão a empresa. Se o sucesso de um empreendimento depende principalmente do empreendedor, se são as necessidades as grandes impulsionadoras dos comportamentos, o que faz um empreendedor de sucesso mover? Quais as suas necessidades?

De acordo com Birley e Westhead (apud Lezana e Tonelli, 1998) as principais necessidades são:
· Necessidade de Aprovação – seus desejos são conquistar uma alta posição na sociedade, obter o reconhecimento, ter respeito, status e prestígio da sociedade.
· Necessidade de Independência – a necessidade de liberdade e autonomia é bastante forte nos empreendedores, buscando o controle do seu próprio tempo e colocar seu enfoque no trabalho.
· Necessidade de Desenvolvimento Pessoal – refere-se a necessidade de desenvolver seus potenciais, habilidades, buscar novos conhecimento, de inovar, estar sempre acompanhando e a frente das mudanças exigidas pelo mercado.
- Necessidade de Segurança – necessidade de proteção dos perigos e ameaças advindos do meio, podendo ser perigos reais ou imaginário, físicos ou psicológicos, é a auto-preservação.
· Necessidade de Auto-realização – é o aperfeiçoamento dos desempenhos e realizações, por meio da maximização dos potenciais.

É importante salientar ainda que os empreendedores tem necessidades diferentes nos mais diversos momentos de sua vida, sendo preciso analisar as necessidades do empreendedor em relação a si mesmo e os reflexos disto em sua empresa, pois isto pode ser prejudicial ou não para a organização.

Segundo Churchill & Muzyka, 1994 (apud Camilotti, 2001) mostra que as organizações com administração empreendedoras possuem algumas características como:
· Objetivos econômicos e sociais (como o reconhecimento das necessidades sociais dos envolvidos nas organizações);
· Princípios básicos (como adaptação e aprendizagem, foco na oportunidade etc.);
· Visão sistêmica (flexibilidade dos indivíduos);
· Processo empreendedor (com o apoio de todos os envolvidos na organização);
· Conhecimento (adaptar captar novas oportunidades)

Uma visão mais tradicional da organização negligencia aspectos latentes como as atitudes, normas e valores, os mitos pessoais e organizacionais, a sombra individual e organizacional, os sentimentos, motivações e desejos, dimensões importantes para a compreensão da dinâmica organizacional. De acordo com Ziemer (1996) é um mito acreditar que se conhece as necessidades dos funcionários, pois geralmente as empresas possuem uma visão distorcida das necessidades e expectativas, refletindo diretamente na motivação e
prejudicando seriamente o desempenho profissional dos indivíduos.

O clima organizacional está intimamente associado em nível motivacional dos envolvidos na organização. Então, uma elevada motivação entre os membros, faz com que qualidade deste clima se eleve, ou o contrário, uma baixa motivação leva a uma diminuição nesta qualidade. Contudo, o ambiente organizacional influencia o estado motivacional das pessoas e vice-versa.

CONCLUSÃO
As necessidades são intrínsecas ao ser humano, cabendo ao meio a oportunidade de possibilitar a satisfação ou não. Através do auto-conhecimento, por meio da conscientização das próprias necessidades, do porquê de seus comportamentos e atitudes, dos seus desejos, e o indivíduo conseguirá mais facilmente alcançar os seus objetivos e elevar sua motivação.

O empreendedor possui seu empreendimento como meio para satisfazer suas próprias necessidades.

Empreendedores de Sucesso possuem necessidades e motivações como qualquer outro indivíduo, porém há uma ênfase nas necessidades de independência, autonomia, liberdade, status e prestígio da família, de ser reconhecido, de ser aprovado pelos seus conhecimentos.

É possível afirmar que estas necessidades influem no sucesso do empreendimento que é buscado com comprometimento e persistência, ou seja, o sucesso da empresa é uma conseqüência também do comportamento do empreendedor, porém não se pode omitir outros fatores que determinam o sucesso do empreendimento.

É importante dizer que a necessidade de independência muitas vezes é limitado pela excessiva carga de trabalho. A necessidade de auto-realização, será o “motor do crescimento”, pois permite que o empreendedor maximize seu potencial na tentativa de superar os próprios limites. A conscientização das suas limitações possibilitará o desenvolvimento de novas habilidades, assim como a busca por novos conhecimentos.

Enfim, descobrir as próprias necessidades e daqueles que estão envolvidos na organização é importante para manter a motivação e entusiasmo dos indivíduos, bem como para aumentar a produtividade e o desempenho da equipe. A busca constante pela satisfação das suas necessidades tendem a influenciar o comportamento do empreendedor bem sucedido.





 


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